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Meningite: Um crime da ditadura brasileira
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"Só na cidade de São Paulo foram 12.330 casos, o que dá 33 por dia. Óbitos foram cerca de 900. Se nós considerarmos a população atual da capital seriam 20 mil casos de meningite no ano e 4 mil óbitos. Era realmente uma situação gravíssima"

por CONCEIÇÃO LEMES

Meningite é uma inflamação das meninges, as membranas que envolvem o cérebro. É causada principalmente por agentes infecciosos – fungos, vírus e bactérias. Portanto, há vários tipos.

Os sintomas iniciais: dor de cabeça forte, febre alta, rigidez de nuca (dificuldade para movimentar a cabeça), desânimo, moleza, vômitos em jatos. Bebês podem apresentar também moleira elevada, gemido quando tocado, inquietação com choro agudo, rigidez corporal com movimentos involuntários, ou corpo “mole”, largado.  As crianças, aliás, são o grupo de maior risco; as com menos de 1 ano, as mais suscetíveis.

Para diagnóstico, coleta-se o líquido da medula espinhal. As meningites por vírus produzem quadro leve; em geral, em 1 a 2 dias, as crianças estão bem. A mortalidade é praticamente zero. Já as meningites por bactérias são mais graves. A produzida pelo pneumococo tem alta letalidade: em cada 100 casos, 20 a 30 vão a óbito. Já a pelo meningococo mata 20 em cada 100 pessoas doentes

Foi justamente uma epidemia por meningite por meningococo, ou meningite meningocócica, que explodiu no Brasil na primeira metade da década de 1970. O Brasil vivia o período mais violento da ditadura. Foi o auge da repressão, da tortura e da censura. No comando do governo, o general Emílio Garrastazu Médici.

Os números sobre meningite no País naquele período são precaríssimos. Em 1974, de acordo com registros disponíveis no Ministério da Saúde, existiriam 19.396 casos; nenhum óbito catalogado. Nem de longe retratam a realidade.

 “Só em 1974, no município de São Paulo, foram 12.330 casos; uma média de 33 por dia”, afirma o médico epidemiologista José Cássio de Moraes, professor-adjunto do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Santa Casa de São Paulo. “No mesmo período ocorreram cerca de 900 óbitos.”

Naquela época, José Cássio tinha 29 anos, já era médico e integrava um grupo técnico de epidemiologistas, infectologistas e sanitaristas da própria FCM e das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da USP. O grupo alertou as autoridades de saúde durante quatro anos. O tempo inteiro foi solenemente ignorado, como revela José Cássio nesta entrevista exclusiva ao Viomundo. 
 
Viomundo – A epidemia de meningite meningocócica explodiu em 1974. Quando teve início?
José Cássio de Moraes – Em 1971. Na realidade, duas epidemias ocorreram ao mesmo tempo. Uma, pelo meningococo C, teve início em abril de 1971. O tipo C costuma se manifestar em comunidades fechadas, como quartéis, prisões. Em maio de 1974, começou a segunda, pelo meningococo A, cujo poder de gerar epidemia é muito maior do que o C. Assim, a partir de maio de 1974, passaram a circular, simultaneamente, dois tipos diferentes de meningococo, A e C.

Viomundo – Em que ano as autoridades foram informadas de que havia epidemia de meningite no País?  
José Cássio de Moraes – Em 1971 mesmo. Nós fizemos vários levantamentos e demonstramos cientificamente. As autoridades de saúde negaram a sua existência.

Viomundo – Por quê?
José Cássio de Moraes – O Brasil vivia a época do “milagre econômico”, e as autoridades consideravam a epidemia um fracasso. Logo, empanava o brilho do “milagre econômico”. Por isso, optaram por negá-la.

Viomundo – Essa informação era divulgada à população?
José Cássio de Moraes – Para nós, médicos de instituições públicas, já existia a lei da mordaça. Embora tecnicamente tivéssemos razão, não podíamos contradizer as autoridades. A palavra oficial era delas. Então, o que fazíamos? Dávamos entrevistas em off [o jornalista não cita a fonte] para jornalistas em quem confiávamos. Um deles era o Demócrito Moura, do Jornal da Tarde, já falecido, que fazia matérias de saúde. Assim, saíram algumas reportagens, mostrando que a versão oficial não era a única. Mas, claro, eram sempre e imediatamente negadas pelas autoridades.  

Viomundo – E nos anos seguintes?
 José Cássio de Moraes – Nós continuávamos a dizer que havia epidemia, as autoridades negando. É como se determinassem a inexistência da epidemia por decreto.

Viomundo – Enquanto isso o meningococo ...
José Cássio de Moraes -- Aí o x da questão. O meningococo é analfabeto – não sabe ler, muito menos decreto. O meningococo também não precisa de apresentação para conhecer outras pessoas nem de passaporte para viajar. Resultado: foi se espalhando. Na cidade de São Paulo, por exemplo, saiu das áreas pobres e invadiu as regiões mais ricas. Assim, a epidemia, inicialmente, restrita à cidade de São Paulo, avançou para outras regiões do Estado. Daí para o restante do Brasil. Aqui, ocorreram as taxas mais altas. Mas a doença se espalhou pelo Brasil inteiro.

Viomundo – Apesar do alastramento, as autoridades continuavam a negar?
José Cássio de Moraes – A palavra epidemia não chegava à população. Ela não existia no vocabulário das autoridades. Eles tratavam-na como ondas epidêmicas. Porém, ao atingir a população mais abastada financeiramente, a pressão cresceu. As reportagens – sempre em off – intensificaram-se à medida que a doença ia se aproximando da classe média e da elite. Ou seja, enquanto era doença de pobre, não tinha quase importância. Só ganhou mais espaço na mídia quando atingiu a população com maior poder de pressão.

Viomundo – A negação perdurou até quando?
José Cássio de Moraes – Junho de 1974. O Hospital Emílio Ribas – o único que tratava de meningite na cidade -- tinha 300 leitos, mas estava com 1.200 pacientes internados. Havia gente em corredores, em cima de pias, para tudo o que era canto. Aí, não foi possível mais se esconder. As autoridades, então, foram obrigadas a admitir publicamente que havia epidemia de meningite. Porém, como ela não existia oficialmente até aquele momento, faltava tudo: medicamentos, roupas de cama, funcionários em quantidade suficiente.  

Viomundo – A população como reagiu?
José Cássio de Moraes – Entrou em pânico. Quando passava em frente ao Hospital Emílio Ribas, fechava o vidro do carro, do ônibus. Usava todo tipo de medicamento que se dizia que protegia contra a meningite. Por exemplo, a cânfora. Acabava sendo vítima até de charlatães. As pessoas não entendiam como as autoridades governamentais passaram anos dizendo que não havia epidemia e, de repente, ela acontecia com tamanha intensidade. As pessoas viviam dizendo “eu não acredito em mais nada”.

Viomundo – A partir daí o que as autoridades governamentais fizeram?
José Cássio de Moraes – A única medicação que protegia era uma vacina que se encontrava em fase experimental. Mas, como não tinha sido encomendada com antecedência, não havia nada de concreto que se pudesse fazer para prevenir a doença. As autoridades passaram então a adotar medidas cosmésticas. Por exemplo: fechar as escolas onde aparecia um caso, passar formol na sala de aula onde uma criança tinha adoecido. Medidas que, apesar de totalmente improdutivas, eram estimuladas. Ou seja, havia um descompasso entre o que infectologistas e sanitaristas preconizavam e o que as autoridades públicas faziam. Isso tanto no diagnóstico quanto no tratamento.

Viomundo – Em junho de 1974, o governo militar admitiu a epidemia. Como ficou o noticiário a partir daí?
José Cássio de Moraes – A liberdade de informar sobre a epidemia durou pouco; logo em seguida, julho ou agosto, se proibiu a divulgação de dados estatísticos a respeito da doença para “não alarmar a população”. O assunto era considerado de segurança nacional.

Viomundo – E a meningite como se “comportava”?
José Cássio de Moraes – Continuou aumentando. Em setembro de 1974 teve o seu pico. Só que toda a imprensa foi proibida de divulgar.  Os dados estatísticos estavam censurados, bem como proibidas matérias consideradas sensacionalistas. Considerava-se sensacionalista a matéria que se propunha a mostrar a verdade dos fatos.

Viomundo – O que alegavam para não divulgar os dados estatísticos?
José Cássio de Moraes -- Que criaria pânico na população.  Mas, nós, todo dia, atualizávamos os dados e colocávamos no quadro de aviso que havia no andar térreo do Palácio da Saúde, na avenida São Luís, onde funcionava a Secretaria de Saúde do Estado. Os jornalistas procuravam, tinham acesso aos dados, mas não podiam divulgar porque havia a censura. Alegava-se, como já disse, que geraria pânico. Mas a informação estava lá. 

Viomundo – Quantos casos de meningite foram registrados em São Paulo em 1974? E quantos óbitos?
José Cássio de Moraes -- Só na cidade de São Paulo foram 12.330 casos, o que dá 33 por dia. Óbitos foram cerca de 900. Se nós considerarmos a população atual da capital seriam 20 mil casos de meningite no ano e 4 mil óbitos. Era realmente uma situação gravíssima.

Viomundo – Houve pânico também entre os médicos?
José Cássio de Moraes -- Os médicos com experiência em doenças infecciosas ficaram muito sobrecarregados. Os que não tinham essa informação, sentiram praticamente o mesmo pânico que a população. Para atender pacientes, alguns usavam roupas parecidas com as de astronauta – capacete, óculos, botas. Em compensação, outros não usavam qualquer proteção. Teve colega que se mudou para o interior com a família com medo da epidemia.

Viomundo – A censura ao noticiário da meningite durou até quando?
José Cássio de Moraes – Até o início de 1975, quando assumiu a secretaria de Saúde do Estado de São Paulo o professor Walter Leser. Houve mudança completa de conduta. Tudo passou a ser divulgado. Até porque já se preparava uma grande campanha de vacinação. Na época foram vacinadas todas as pessoas com mais de 6 meses de vida. A vacinação começou na Grande São Paulo, onde o problema era mais grave. Depois, foi feita em outras regiões do Estado. Em seguida, no restante do Brasil. No total, foram vacinadas no País quase 80 milhões de pessoas.

Viomundo – O senhor acha que se as autoridades públicas tivessem agido desde 1971, quando vocês alertaram, a epidemia de meningite teria sido menor?
José Cássio de Moraes – Não dá para garantir que a epidemia teria sido menor. Mas certamente o pânico da população e o impacto seriam menores.

Viomundo – O que quer dizer com impacto menor?
José Cássio de Moraes – É que teria sido possível dar mais conforto à população e reduzir a mortalidade e as seqüelas.

Viomundo – O senhor acredita então que se não fosse a desinformação imposta pela censura o número de óbitos seria menor?
José Cássio de Moraes – Certamente.  O silêncio – essa negação de qualquer problema -- dificulta qualquer passo para você solucionar ou reduzir os efeitos do problema. Seguramente os malefícios foram maiores do que se tivessem sido adotadas as condutas adequadas no momento adequado. 

Viomundo – Informação em saúde para a população em geral gera pânico?
José Cássio de Moraes – A de boa qualidade, não. É um importante instrumento de saúde pública. O que gera pânico é a falta de informação. Assim como a informação de má qualidade, como aconteceu na febre amarela em 2008. Criou-se uma epidemia midiática de febre amarela, que levou muita gente a se vacinar desnecessariamente. Teve quem tomou várias doses. O que aconteceu com febre amarela é um exemplo do que não fazer em jornalismo de saúde.

Viomundo – Já que estamos falando de meningite, para arrematar, que alerta o senhor daria para pais e mães, já que as crianças são as principais vítimas?
José Cássio de Moraes --  Estejam atentas aos sinais e sintomas de meningite, principalmente em crianças com menos de 5 anos. Se notar a presença deles, não o mande para a escola. Procurem imediatamente um médico para fazer o diagnóstico e o tratamento se necessário.   

Fonte: http://www.viomundo.com.br/blog-da-saude/meningite-como-a-censura-a-midia-mata/


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